Segunda Feira, 12 de Novembro de 2018
::: CONSTRUINDO DIQUES DE CORAGEM...


26/10/2012
Com um sorriso sempre estampado no rosto e um cativante bom humor, seu nome é “Coragem’. Aliás, nome não, alcunha! Talvez nem mesmo ele saiba seu verdadeiro registro de cartório. Sabe-se que ele tem um irmão gêmeo, que mora em outra cidade.
“Coragem” trabalha de engraxar sapatos, mas às vezes passa dias e dias sem nada fazer. Não porque não queira, mas sim pela escassez de clientes.
Anda pelas ruas de Nova Esperança, ziguezagueando entre os transeuntes sempre alegre e sorridente. Muitos o ignoram. Poucos param para ouvir o que tem a dizer...
Contou-me que vive sozinho, que seus pais o deixara... ‘Mora’ no cemitério. Sim no cemitério. Pasmem! – Onde você dorme, ‘Coragem’? pergunto eu. Ele responde sem titubear. “Em um túmulo vazio, que eu encontrei lá”. Por um instante vi a tristeza em seu olhar. Como um médico que vasculha o corpo humano, eu parecia ir além: revirava a sua alma! As adversidades da vida não lhe impediam de prosseguir e lutar. Mais do que isto, ele, como o Neymar da bola, dribla como poucos as dificuldades impostas pela vida, sem perder o constante bom humor. Dizem que ele tem problemas psicológicos. Talvez tenha sim, mas não sei de onde ele extrai tanta força... Sempre grita, quase que em tom de incentivo para quem passa: “Coragem...coragem”,
Quando perguntei se ele tinha pai, senti o vazio e a tristeza em sua alma. Foi o momento que quase chorando, relatou seu triste quadro de abandono. Por um momento, tomado pela emoção daquele instante, disse que seria seu ‘pai espiritual’, já que do carnal ele não tinha a mínima lembrança. Ele abrira naquele instante um largo sorriso. Disse que não tinha comido nada. Mas me contou sua história confidenciando, não como alguém que vive esmolando. Isto não combina com ele. Já era por volta das 16 horas daquela tarde chuvosa, quase fria. Com imenso prazer, proporcionamos a refeição daquele dia para o jovem “Coragem”. Seu estômago roncava, ruído confundível com seus sussurros de alegria. As panquecas viraram pratos nobres para ele, que quase não podia se conter. Dali em diante, onde me vê ele grita “Oi pai... coragem”! com igual alegria o saúdo.
Morar no cemitério por necessidades não fizera dele menos feliz. Um lugar onde não há vida ele trás a vida. Recolhe-se ali, na cova anônima. Fico imaginando como deve ser ficar ali, por horas, por dias...por anos...
Dia desses encontrei um outro jovem. Vou chamá-lo aqui pelo fictício nome de Jorge. Jogamos bola juntos na Escolinha de futebol da minha cidade. Ele era um craque de bola. Eu,dono de um futebol mediano, reconheço. Esta definitivamente não era a minha ‘praia’. Perdeu-se na vida. Feito um Zumbi, Jorge caminha pelas ruas sob o visível efeito das drogas. Disseram-me que ele tem dois vícios: O do Crack e o álcool. Não sei dizer qual destes o corrói mais. Talvez os dois. Ele não vislumbra qualquer coisa mais na vida. Perdera a esposa e filhos, que se afastaram dele. Perdera o estímulo e a vontade de viver. Perdera a coragem... coragem de lutar, coragem de encarar o vício, coragem de buscar uma saída. Os efeitos químicos da droga se digladiam contra qualquer vontade de parar. Parece mais forte que ele. Fantasmas psicológicos interiores na sua mente o atormentam. Alguns chegam a profetizar que Jorge não chegará aos 40 anos de vida. Muito provavelmente seja verdade. Algo que vem acontecendo em Nova Esperança é a perda de nossos jovens para as drogas. Urge investir-se na área de esportes e na formação profissionalizante desta camada da população. O trabalho feito preventivamente surte mais efeitos do que ver futuramente essas pessoas vegetarem pelos cantos das ruas. Neste momento em que escrevo este editorial, várias mães choram porque seus filhos ainda não voltaram para casa e infelizmente muitos talvez nem voltem. A grande verdade é que nós precisamos de coragem... Coragem para enfrentar e vencer este tão tenebroso mundo das drogas, onde muitos estão se afundando. Coragem de sair da nossa zona de conforto e nos mobilizar...
Nosso primeiro personagem, o “Coragem”, com seu jeito de criança, frente às dificuldades da vida faz valer seu pseudônimo. Ele me inspira a lutar e crer que podemos mudar este quadro triste. Coragem me faz lembrar do pensamento de Aline Diedrich: “ Nós descobrimos que liberdade nada tem a ver com experimentar todas as drogas, vícios ou virtudes do mundo. Liberdade é poder escolher”. E vamos escolher viver com fé, amor e sem sombras de dúvidas... Coragem...muita coragem!

"Devemos construir diques de coragem para conter a correnteza do medo”. - Martin Luther King Jr. (1929-1968)
Alex Fernandes França é Diretor do Jornal Noroeste, Formado em Administração de Empresas, bacharelando em Teologia pelo Instituto Teológico do Paraná e membro da Associação dos Cronistas do Estado do Paraná.

Fonte: Alex Fernandes França - alexnoroeste@hotmail.com

 
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